Caminho de Humanidade...
Há um caminho...
Nesse caminho encontramos amores e dissabores,
Nele não há certezas e honras.
Nesse caminho há apenas a vontade certa de penetrar o incerto, mergulhar no mistério e envolver-se pela contemplação de eternidade...
Ah... que eternidade!
A eternidade dos simples que se fazem no tempo.
O tempo dos fracos que se fortificam nos sonhos...
A vida vivida dos que comigo partilham a esperança...
E de repente, no caminho, jaz apenas o encontro: entre o EU que em mim centelha e o TU que em ti contemplo...
Caminhando, enfim, encontro com aqueles que aceitam ser simples; com aqueles que, sendo simples, tornam-se grandes e, sendo grandes, tornam-se detentores de uma sublime humanidade...
Nesse caminho encontramos amores e dissabores,
Nele não há certezas e honras.
Nesse caminho há apenas a vontade certa de penetrar o incerto, mergulhar no mistério e envolver-se pela contemplação de eternidade...
Ah... que eternidade!
A eternidade dos simples que se fazem no tempo.
O tempo dos fracos que se fortificam nos sonhos...
A vida vivida dos que comigo partilham a esperança...
E de repente, no caminho, jaz apenas o encontro: entre o EU que em mim centelha e o TU que em ti contemplo...
Caminhando, enfim, encontro com aqueles que aceitam ser simples; com aqueles que, sendo simples, tornam-se grandes e, sendo grandes, tornam-se detentores de uma sublime humanidade...
Não existe amor maior...
De repente a gente descobre que não pode mais estar sozinho... que nem a incompletude nossa é capaz de conformar-nos com a ausência de quem nos completa... E então a gente descobre que não pode viver sem o encanto, o carinho, a presença, o amor que Deus nos presenteia...
O que significa ser mestre...
Neste dia, a maestria se fez presente na singeleza dos gestos e na simplicidade de quem é sábio na inteireza... de quem é inteiro na sabedoria e humanidade.
domingo, 10 de fevereiro de 2013
A EXPERIÊNCIA SOLITÁRIA DA MORTE
Entrei na Igreja escura. Uma luz acesa, apenas uma: a fraca lâmpada do SS. Sacramento. Percorri alguns metros até A Sacristia e acendi a luz. Ali, na nave central, no mesmo lugar que um dia eu havia me ajoelhado e me prostrado para a ordenação diaconal, diante do altar que tantas vezes celebreI o Sacrifício, estava o Corpo do velho padre, do velho amigo, do meu velho confessor. Três coroas de rosas, velas apagadas, corpo revestido pela túnica simples que sempre esteve no seu guarda roupa. Sobre os ombros, a velha estola, a dele, que muitas vezes enxugou lágrimas e testemunhou a simplicidade.
Olhei ao redor... um imenso espaço vazio, um silêncio ensurdecedor. No centro da igreja, aquele corpo, rosto sereno, pele sem rugas, os restos mortais de um grande homem. Ninguém ao redor, apenas os anjos e as preces que em vida aquele bom homem pode rezar. Os ecos de suas pregações em vida, naquele momento, estavam-lhe servindo de companhia. Sempre acreditei que as dádivas que partilhamos em vida não nos servem no momento que delas experienciamos. O que em vida fazemos serve para o júbilo na morte, ali, quando ninguém mais está ao nosso lado.
Um filme passou em minha memória: toquei o seu rosto, peguei a sua mão, beijei a sua testa. Ali, no corpo presente, a minha reação foi a reverência e o pranto calado, recaindo em forma de lágrimas gotejantes de existência.
Lembrei-me do primeiro encontro. Um homem bom. Quando no seminário chegou para ser o nosso confessor, me chamou ao canto e me disse palavras até hoje vivas em minha memória. Os ecos daquelas palavras e de tantas outras em confissão, me acompanham durante toda a minha vida.
Vivia de forma simples. Tinha sido um grande professor. Ensinou a ministros, secretários de Estado, bispos e muitas notórias personalidades. Era professor de Teologia na época em que o negro não podia ser ordenado padre e muito menos professor catedrático. Orgulhava-se do título de Bacharel em Teologia quando este tinha o Status de "Doutorado". Defendeu o seu trabalho final em latim e grego. Por todos admirado...
Era amigo de políticos. Tudo o que deles conseguia era para os pobres. Lembro-me que um dia, no seminário menor, tendo eu apenas um par de calças e um par de tênis, foi ele quem me ajudou. Ajudou os pobres por onde passou.
No seu guarda roupa, algumas peças, uma simples túnica e duas estolas. A sua aposentadoria, toda investida em chocolates e bombons para distribuir às crianças, aos jovens, aos seminaristas. Ah... quantas vezes fui testemunha de momentos em que os superiores chamavam a sua atenção por ele cumprir tal gesto. O que era um salário mínimo na velhice diante de uma vida toda dedicada? Os olhos lacrimejavam e ele se recolhia. Nunca resmungou. Silenciava sempre diante do que para muitos era humilhação.
Sempre que eu entrava em seu quarto, estava ele escrevendo na sua velha máquina de escrever. "Estava compondo mais um livro", dizia ele. Orgulhava-se de ser padre. Orgulhava-se de ter o carisma da juventude.
A última vez que o vi foi no Hospital... Estava ele acompanhado por uma cuidadora...
Uma vida toda dedicada aos outros...No fim, de um lado e de outro, ninguém. Um homem que tanto acreditou que valia a pena dedicar toda a vida aos outros, incluindo a comunhão na vida religiosa, de repente, ali, sozinho, na frieza da madrugada ante o féretro da indiferença.
Novamente o contemplo...
faço minhas orações.
Encomendo-lhe o corpo e peço a sua intercessão.
Cubro-lhe com o tule que o envolvia.
Apago a luz.
Faço minha prece final.
Retiro-me em silêncio.
Em silêncio permaneci até em casa.
Ao chegar, minha esposa pergunta: "Muita gente no velório?".
Com vergonha e talvez com angústia eu lhe disse: "Apenas eu... o meu velho padre estava sozinho."
E fui tentar dormir...
segunda-feira, 7 de maio de 2012
sábado, 31 de março de 2012
domingo, 4 de março de 2012
Quando as dúvidas nos inquietam...
Não são poucas as vezes em que somos indagados acerca de algumas situações existenciais. Na maioria das vezes trata-se mais de incertezas que assolam o humano do que propriamente dúvidas que podem ser resolvidas com respostas simples.
A juventude é 'expert' em nos indagar. Indagam-nos acerca da corporalidades e da inteireza do amanhã; sobre o desamor de hoje e a possibilidade do amor de amanhã; sobre as dores de hoje e as alegria de amanhã; sobre a vida e a morte; sobre o espírito e o corpo. E assim por diante...
Como explicar tantas dúvidas? Não seria melhor perguntar: por que não entendemos a humanidade que temos e a condição que somos? Por que sempre buscar o infinito quando o finito nos aperta? Por que falar de espírito quando o corpo nos questiona? Por que, enfim, perguntar pelas causas primeiras quando as últimas já não são as que imaginávamos ser?
Pois é... As angústias da vida são a marca registrada da nossa humanidade. Nunca estamos satisfeitos. Somo incompletos, inacabados, cavaleiros fiéis ao caminho da completude - nunca alcançada, talvez buscada, inimaginável - , mas sempre a caminho ...
Somos a dor que passamos, mas também somos a pergunta pela superação das ameaças de dor. Somos pessoas tristes, mas também somos instigadores de uma alegria que não para na tristeza, não se rende à angústia e não se contenta com o ódio. Somos a parte e o todo: sabendo-nos parte, tornamo-nos todo e, sabendo-nos todo, igualmente ou diversamente, somos o todo da/na parte...
Somos a busca e o encontro. Somos a chegada e a partida. Somos a quietude e a inquietação. Somos o ir e o vir. Somos a completude e o inacabamento.
E sabe por quê?
... porque o descontentamento que nos assola é menor que a esperança que nos aflige.
... porque o horizonte que nos afirma é muito mais ativo que a imanência que nos limita.
... porque a interioridade que em nós borbulha é muito mais verdadeira que a exterioridade que nos devora.
E então, damo-nos conta de que as indagações que nos são colocadas pela condição humana não passam de inquietações fortes (mais...ou menos...) do nosso "ato" prenhe de existir. É a explicitação dos momentos nos quais nos encontramos e que, de uma forma ou de outra, somos levados a lembrar de questões cruciais e fundantes das nossas buscas...
Serão saciadas essas questões? Talvez por um momento...mas são questões que continuarão a existir... Um outro dia, elas novamente surgirão, buscando novas respostas, novos caminhos...porém, sempre velhas questões que mais uma vez se encontrarão diante de novas situações indagadoras...
E assim, então, daremo-nos conta de que nós e nossas indagações são elementos perenes do nosso ato de viver. Mudam apenas as situações...ah...mas com essas, nós aos poucos vamos aprendendo a lidar...
O importante mesmo é viver apaixonadamente pelo ato de existir. E, com ele, o nosso ato de querer respostas pelo menos para aquele ato. No mais: resta-nos esperar novos momentos...resta-nos esperar novos momentos de indagações.
A juventude é 'expert' em nos indagar. Indagam-nos acerca da corporalidades e da inteireza do amanhã; sobre o desamor de hoje e a possibilidade do amor de amanhã; sobre as dores de hoje e as alegria de amanhã; sobre a vida e a morte; sobre o espírito e o corpo. E assim por diante...
Como explicar tantas dúvidas? Não seria melhor perguntar: por que não entendemos a humanidade que temos e a condição que somos? Por que sempre buscar o infinito quando o finito nos aperta? Por que falar de espírito quando o corpo nos questiona? Por que, enfim, perguntar pelas causas primeiras quando as últimas já não são as que imaginávamos ser?
Pois é... As angústias da vida são a marca registrada da nossa humanidade. Nunca estamos satisfeitos. Somo incompletos, inacabados, cavaleiros fiéis ao caminho da completude - nunca alcançada, talvez buscada, inimaginável - , mas sempre a caminho ...
Somos a dor que passamos, mas também somos a pergunta pela superação das ameaças de dor. Somos pessoas tristes, mas também somos instigadores de uma alegria que não para na tristeza, não se rende à angústia e não se contenta com o ódio. Somos a parte e o todo: sabendo-nos parte, tornamo-nos todo e, sabendo-nos todo, igualmente ou diversamente, somos o todo da/na parte...
Somos a busca e o encontro. Somos a chegada e a partida. Somos a quietude e a inquietação. Somos o ir e o vir. Somos a completude e o inacabamento.
E sabe por quê?
... porque o descontentamento que nos assola é menor que a esperança que nos aflige.
... porque o horizonte que nos afirma é muito mais ativo que a imanência que nos limita.
... porque a interioridade que em nós borbulha é muito mais verdadeira que a exterioridade que nos devora.
E então, damo-nos conta de que as indagações que nos são colocadas pela condição humana não passam de inquietações fortes (mais...ou menos...) do nosso "ato" prenhe de existir. É a explicitação dos momentos nos quais nos encontramos e que, de uma forma ou de outra, somos levados a lembrar de questões cruciais e fundantes das nossas buscas...
Serão saciadas essas questões? Talvez por um momento...mas são questões que continuarão a existir... Um outro dia, elas novamente surgirão, buscando novas respostas, novos caminhos...porém, sempre velhas questões que mais uma vez se encontrarão diante de novas situações indagadoras...
E assim, então, daremo-nos conta de que nós e nossas indagações são elementos perenes do nosso ato de viver. Mudam apenas as situações...ah...mas com essas, nós aos poucos vamos aprendendo a lidar...
O importante mesmo é viver apaixonadamente pelo ato de existir. E, com ele, o nosso ato de querer respostas pelo menos para aquele ato. No mais: resta-nos esperar novos momentos...resta-nos esperar novos momentos de indagações.
quinta-feira, 24 de novembro de 2011
viver de morte e morrer de vida
O medo que temos de encarar a morte se assemelha ao medo que nutrimos quando encaramos a vida. Medo é um sentimento que anula os caminhos que rodeiam a vitalidade humana e, por um instante, ou por instantes inteiros, congelam a coragem que temos em seguir adiante.
Quase sempre fugimos da morte como uma condição a ser evitada. Tememos a perda por não acreditarmos ser ela um elemento a nos completar. Erramos ao pensar assim. As perdas são sempre rostos diferentes do ato de ganhar, configurações plurais da singularidade da conquista. Não há conquista verdadeira que não venha munida pela perda. Cada perda é sempre um degrau para voos muito mais altos.
Talvez o medo que temos não é o de morrer. É medo de viver. Viver implica uma morte a cada vez, uma perda demorada da nossa condição. Trata-se de uma perda-ganho que se configura na maestria da relação, no aconchego da fé, na mágica da esperança. Somos os únicos que sabemo-nos morrer.
Somos os únicos seres que sabemo-nos viver de morte e viver de vida. Vivemos a consciência latente das perdas e dos ganhos em forma de crescimento, em forma de busca, em forma de realização. Não nos damos conta mas cada vitória que nutrimos na existência é marcada pelo conjunto de perdas. E, cada perda, quase sempre se afirma como possibilidade de ganho real no crescimento individual e coletivo de cada ser humano.
E aí, damo-nos conta de que a poesia de vida que nos envolve é muito mais sublime do que a ilusão das perdas que nos assola. Aprendemos humanamente que as marcas que nos compõem são marcas humanas do tempo, eternizadas pelo calor da felicidade e vivenciadas na esperança de dias sempre melhores para a nossa vida...
E então... uma certeza: não há humanidade que não viva de morte. Não há morte que não viva de vida. Não há, enfim, caminhos humanos que não trafeguem os caminhos da busca e não anseiem horizontes de vida....
Quase sempre fugimos da morte como uma condição a ser evitada. Tememos a perda por não acreditarmos ser ela um elemento a nos completar. Erramos ao pensar assim. As perdas são sempre rostos diferentes do ato de ganhar, configurações plurais da singularidade da conquista. Não há conquista verdadeira que não venha munida pela perda. Cada perda é sempre um degrau para voos muito mais altos.
Talvez o medo que temos não é o de morrer. É medo de viver. Viver implica uma morte a cada vez, uma perda demorada da nossa condição. Trata-se de uma perda-ganho que se configura na maestria da relação, no aconchego da fé, na mágica da esperança. Somos os únicos que sabemo-nos morrer.
Somos os únicos seres que sabemo-nos viver de morte e viver de vida. Vivemos a consciência latente das perdas e dos ganhos em forma de crescimento, em forma de busca, em forma de realização. Não nos damos conta mas cada vitória que nutrimos na existência é marcada pelo conjunto de perdas. E, cada perda, quase sempre se afirma como possibilidade de ganho real no crescimento individual e coletivo de cada ser humano.
E aí, damo-nos conta de que a poesia de vida que nos envolve é muito mais sublime do que a ilusão das perdas que nos assola. Aprendemos humanamente que as marcas que nos compõem são marcas humanas do tempo, eternizadas pelo calor da felicidade e vivenciadas na esperança de dias sempre melhores para a nossa vida...
E então... uma certeza: não há humanidade que não viva de morte. Não há morte que não viva de vida. Não há, enfim, caminhos humanos que não trafeguem os caminhos da busca e não anseiem horizontes de vida....
quinta-feira, 29 de setembro de 2011
Somos o que fazemos da vida...
As marcas da nossa vida são relatadas pela simplicidade dos nossos atos. O que mais importa na vida é o que fazemos a cada dia: os simples gestos, as simples ações. Cada um dos feitos precisa ser relato cotidiano dos nossos sonhos, das nossas labutas, das razões pelas quais lutamos e vivemos. Ninguém mais do que nós poderá julgar a força das nossas lutas, dos nossos atos.
E então descobrimos que fazer é muito mais do que ações encadeadas por momentos subsequentes. Fazer é a arte humana de poder dar sentido, de poder agir porque na ação está a força da vida, a força da esperança de que somos muito mais do que a simples ação: somos o sentido que damos a cada um dos nossos gestos. Por isso, não há gesto maior ou menor, melhor ou pior. Cada gesto nosso é humanizado pela força dos nossos sentidos. Cada gesto é a assinatura humana que fazemos no caderno da existência. Cada gesto é o encadeamento de sentidos que se afirmam em cada instante, possibilitando um novo sentido para a vida, para as nossas razões.
Nesse caminho de ações somos carregados pelas forças propulsoras que dão sentido ao próprio sentido. Falo das esperanças que carregamos e dos sonhos que afirmamos a cada novo dia que amanhece. Esperança e sonho são forças que caminham juntas, que se afirmam juntas. Não há um sem o outro.
Quando as esperanças carregam sonhos e quando os sonhos são molhados pela esperança humana de felicidade, então é porque estão marcados pela ânsia de ir além, pela incrível capacidade de poder buscar o cume da montanha, a ternura dos caminhos e a fluidez da nossa humanidade...
E então a gente se dá conta de que a força das nossas ações não está nas teorias que delas fazemos. Não está nos ganhos que delas tiramos. Agir é muito mais que fazer. Agir é muito mais que existir. Agir é sonhar o sonho que dá razão às nossas razões de ter esperança.
E então descobrimos que fazer é muito mais do que ações encadeadas por momentos subsequentes. Fazer é a arte humana de poder dar sentido, de poder agir porque na ação está a força da vida, a força da esperança de que somos muito mais do que a simples ação: somos o sentido que damos a cada um dos nossos gestos. Por isso, não há gesto maior ou menor, melhor ou pior. Cada gesto nosso é humanizado pela força dos nossos sentidos. Cada gesto é a assinatura humana que fazemos no caderno da existência. Cada gesto é o encadeamento de sentidos que se afirmam em cada instante, possibilitando um novo sentido para a vida, para as nossas razões.
Nesse caminho de ações somos carregados pelas forças propulsoras que dão sentido ao próprio sentido. Falo das esperanças que carregamos e dos sonhos que afirmamos a cada novo dia que amanhece. Esperança e sonho são forças que caminham juntas, que se afirmam juntas. Não há um sem o outro.
Quando as esperanças carregam sonhos e quando os sonhos são molhados pela esperança humana de felicidade, então é porque estão marcados pela ânsia de ir além, pela incrível capacidade de poder buscar o cume da montanha, a ternura dos caminhos e a fluidez da nossa humanidade...
E então a gente se dá conta de que a força das nossas ações não está nas teorias que delas fazemos. Não está nos ganhos que delas tiramos. Agir é muito mais que fazer. Agir é muito mais que existir. Agir é sonhar o sonho que dá razão às nossas razões de ter esperança.
domingo, 11 de setembro de 2011
"FICAR": verbo transitivo.
Um outro dia uma jovem me indagou: "professor, é possível namorar sem antes ficar?".
Sabe aquelas perguntas que deixam a gente sem resposta? Foi o que aconteceu. Sempre acho que os jovens nos surpreendem, deixam a gente sem resposta, sem graça ,talvez.
No fundo, fiquei a pensar sobre aquela pergunta. É uma pergunta sem lógica se entendermos que os afetos são elementos estanques da experiência humana, respostas prontas acerca do que pensamos e sentimos; É pergunta com lógica se olharmos para a afetividade como um elemento dinâmico que toca as emoções e os sentimentos humanos como riqueza constante do desenvolvimento das relações.
Então comecei a pensar que aquela jovem estava correta quando me fazia tal indagação. Não, não é possível namorar sem ficar! Tanto que a questão não é a centralidade do "ficar" que gera a discussão. "Ficar" é apenas um detalhe.
"Ficar", na linguagem dos afetos, é um verbo transitivo: precisa de complemento. O complemento em questão implica muita coisa: o sujeito com quem se fica, as intenções que nos levam a ficar, a forma em que se fica, a finalidade para a qual se fica, as causas a partir das quais nos motivam, e assim por diante.
"Ficar" é um verbo que indica pessoa. Mais que a forma infinitiva, o "ficar" implica um mundo de questões que nos fazem pensar o caminho que se percorre entre o "momento" e a "transitoriedade" dos fatos, entre o "tempo de companhia" e a "permanência de uma presença".
O verbo "Ficar" é irmão do verbo "passar". Fica-se com a pessoa que se deseja, com a "mina" que se quer, com o garotão que se almeja. Mas isso passa. Passa porque o momento é a arte de "passar", de não permanecer, de apenas curtir, porque não é interesse que se vá além da curtição do momento.
"Ficar" é momento que passa. É o voo do pássaro que fica. É a imagem da mente que voa. É o pensamento dos sonhos que somem no horizonte do momento. Ficar não exige, não grita, não cria laços. Não importam os sentimentos que brotam, as paixões que pulsam, os sonhos que surgem. Não requer compromisso, não requer sentimentos, não requer laços que se aprimorem em paixão.
De um simples "ficar" pode surgir uma paixão. Se ela surge, então não foi de um simples ficar. Foi de um "ficar" diferente: que cria laços na origem do "estar junto". O "ficar" que aproxima é aquele que quando se chega ao fim do momento, prolongam-se os laços porque no início o objetivo não era "ficar" enquanto busca de alcançar apenas o conteúdo que está no outro e que me interessa. Se criam-se laços de um simples "ficar", é porque na sua origem os laços já se faziam presentes nos olhares substantivados e adjetivados sobre o outro. O outro, "mina" ou "garotão", não eram meros depósitos de um conteúdo que interessava. O outro fora visto por "inteiro", sem separações, no que há de mais sublime nele ou nela mesmos: a sua humanidade.
Aí então é que o "ficar" que gera namoro é aquele que não se resume ao "uso" do outro como objeto ou como descartável. O "ficar" que gera namoro é aquele que une "mina" e "garotão" com o intuito de partilharem, mesmo que seja um momento, a sua inteireza, o que de humano e verdadeiro cada um carrega.
Na verdade, não existe "ficar". O que existe é uma "descoberta" primeira que, para ser descoberta, precisa ser inteira, não inteira descoberta, mas descoberta que inicia o contato com a inteireza do outro, com os sentimentos que a compõem, com os olhares que se antepõem ao próprio ato de namorar. Neste "ficar", não há espaço para a "instrumentalização" do outro. Há espaço para a abertura, justamente porque esse "ficar" não indica momento de "aproveitamento", mas realização de um desejo de "encontro" em que os sujeitos não ganham individualmente, mas coletivamente.
Um momento em forma de "encontro" é isto: um ficar para frente sem que isso implique "uso" do outro. Um ficar que não passa, mas que marca, que enlaça possibilidades e esperanças em forma de humanidade.
Sabe aquelas perguntas que deixam a gente sem resposta? Foi o que aconteceu. Sempre acho que os jovens nos surpreendem, deixam a gente sem resposta, sem graça ,talvez.
No fundo, fiquei a pensar sobre aquela pergunta. É uma pergunta sem lógica se entendermos que os afetos são elementos estanques da experiência humana, respostas prontas acerca do que pensamos e sentimos; É pergunta com lógica se olharmos para a afetividade como um elemento dinâmico que toca as emoções e os sentimentos humanos como riqueza constante do desenvolvimento das relações.
Então comecei a pensar que aquela jovem estava correta quando me fazia tal indagação. Não, não é possível namorar sem ficar! Tanto que a questão não é a centralidade do "ficar" que gera a discussão. "Ficar" é apenas um detalhe.
"Ficar", na linguagem dos afetos, é um verbo transitivo: precisa de complemento. O complemento em questão implica muita coisa: o sujeito com quem se fica, as intenções que nos levam a ficar, a forma em que se fica, a finalidade para a qual se fica, as causas a partir das quais nos motivam, e assim por diante.
"Ficar" é um verbo que indica pessoa. Mais que a forma infinitiva, o "ficar" implica um mundo de questões que nos fazem pensar o caminho que se percorre entre o "momento" e a "transitoriedade" dos fatos, entre o "tempo de companhia" e a "permanência de uma presença".
O verbo "Ficar" é irmão do verbo "passar". Fica-se com a pessoa que se deseja, com a "mina" que se quer, com o garotão que se almeja. Mas isso passa. Passa porque o momento é a arte de "passar", de não permanecer, de apenas curtir, porque não é interesse que se vá além da curtição do momento.
"Ficar" é momento que passa. É o voo do pássaro que fica. É a imagem da mente que voa. É o pensamento dos sonhos que somem no horizonte do momento. Ficar não exige, não grita, não cria laços. Não importam os sentimentos que brotam, as paixões que pulsam, os sonhos que surgem. Não requer compromisso, não requer sentimentos, não requer laços que se aprimorem em paixão.
De um simples "ficar" pode surgir uma paixão. Se ela surge, então não foi de um simples ficar. Foi de um "ficar" diferente: que cria laços na origem do "estar junto". O "ficar" que aproxima é aquele que quando se chega ao fim do momento, prolongam-se os laços porque no início o objetivo não era "ficar" enquanto busca de alcançar apenas o conteúdo que está no outro e que me interessa. Se criam-se laços de um simples "ficar", é porque na sua origem os laços já se faziam presentes nos olhares substantivados e adjetivados sobre o outro. O outro, "mina" ou "garotão", não eram meros depósitos de um conteúdo que interessava. O outro fora visto por "inteiro", sem separações, no que há de mais sublime nele ou nela mesmos: a sua humanidade.
Aí então é que o "ficar" que gera namoro é aquele que não se resume ao "uso" do outro como objeto ou como descartável. O "ficar" que gera namoro é aquele que une "mina" e "garotão" com o intuito de partilharem, mesmo que seja um momento, a sua inteireza, o que de humano e verdadeiro cada um carrega.
Na verdade, não existe "ficar". O que existe é uma "descoberta" primeira que, para ser descoberta, precisa ser inteira, não inteira descoberta, mas descoberta que inicia o contato com a inteireza do outro, com os sentimentos que a compõem, com os olhares que se antepõem ao próprio ato de namorar. Neste "ficar", não há espaço para a "instrumentalização" do outro. Há espaço para a abertura, justamente porque esse "ficar" não indica momento de "aproveitamento", mas realização de um desejo de "encontro" em que os sujeitos não ganham individualmente, mas coletivamente.
Um momento em forma de "encontro" é isto: um ficar para frente sem que isso implique "uso" do outro. Um ficar que não passa, mas que marca, que enlaça possibilidades e esperanças em forma de humanidade.
domingo, 14 de agosto de 2011
Política
O que é política
Em época de eleições é muito comum ouvir frases como estas:
— Não dou palpite porque não entendo nada de política. Nem quero entender...
— Acho que o fato de um candidato pertencer a um partido ou a outro não tem a menor importância; por isso escolho quem considero ser a melhor pessoa.
— Não tenho gosto em votar. Os políticos sempre dizem as mesmas coisas. Prometem e não cumprem. Querem é se arranjar na vida, isso sim!
— Qual é a função do deputado? Não sei...
— Escolhi este candidato porque lhe devo alguns favores pessoais. Além disso, ele prometeu colocar minha irmã no serviço público.
Essas frases indicam alguns posicionamentos a respeito do fato político.
Quando as pessoas identificam política com politicagem, podem estar expressando o desalento a propósito da ação dos homens públicos; ou então reforçam a postura interesseira do eleitor que sempre espera tirar proveito pessoal da escolha do candidato.
Alguns têm uma visão imobilista, considerando que as mudanças, mesmo quando existem, não alteram intrinsecamente o mundo humano (sempre existiram ricos e pobres...). Outros assumem posição naturalista e determinista ao admitirem que os fatos acontecem independentemente da vontade dos homens. Ou, ao contrário, acomodam-se no paternalismo segundo o qual apenas pessoas especiais, "os grandes homens", teriam capacidade de mando e decisão. A nós, "homens comuns", restaria obedecer sem discutir.
Com freqüência as pessoas não resistem ao individualismo que reduz a complexidade das relações humanas à esfera dos negócios e da vida familiar, bastando ao bom cidadão o cumprimento das obrigações particulares. (Será que o mundo não vai além do meu jardim?)
Embora as frases do início expressem diferentes posições pessoais, elas têm algo em comum, ou seja, são indicativas de desinformação. Geralmente não se sabe o que é política, qual o papel do homem dedicado à política, e em que medida o cidadão comum também é político. Talvez nem se suspeite de que todos nós estamos envolvidos totalmente na política, mesmo sem querer ou sem saber disso.
Força e poder
Em sentido bem amplo, todos nós temos poderes: poder de produzir, de consumir, de criar, de punir, de comandar; poder de seduzir, de agraciar... O menos poderoso dos indivíduos deve ter poderes, mesmo que secretos! Aliás, Freud percebeu com muita argúcia que certos doentes "indefesos" manipulam pessoas, mantendo-as na sua dependência.
No entanto, para que alguém exerça de fato poder, é preciso que possua força. Convém lembrar que o conceito de força não precisa estar necessariamente ligado ao de coerção ou violência, assim como o conceito de poder não significa exclusivamente dominação ou constrangimento.
Mas afinal, o que é o poder? É a capacidade ou a possibilidade de agir, de produzir efeitos (sobre indivíduos ou grupos humanos). Portanto, o poder não é um ser, mas uma relação. Mais ainda, é um conjunto de relações, por meio das quais indivíduos ou grupos interferem na atividade de outros indivíduos ou grupos.
Preciso de força física para poder carregar um pacote pesado. Se amo alguém, sou mobilizado pela força do seu charme, portanto o amado exerce um poder de atração sobre o amante. Nas sociedades democráticas os partidos têm poder e força quando demonstram ser formas atuantes de mobilização social e de interferência em outros centros de poder.
As pessoas interagem por meio de forças criativas que atuam e movimentam as relações humanas. Abordamos aqui três tipos de uso positivo de força; a física, a psíquica e a moral. Trata-se portanto de energias que nos possibilitam viver melhor e enfrentar as dificuldades da vida. E isto é positivo, dinâmico e vital.
Se o confronto de forças em si não é um mal, deveria ser normal as pessoas tolerarem as divergências, conviverem com as diferenças, aprenderem a trabalhar os conflitos. Mas sabemos que, na maior parte das situações, as forças não estão equilibradas. Ao contrário, a força física com freqüência se transforma em mera coerção — e portanto em violência — toda vez que visa o constrangimento de indivíduos ou grupos obrigados a agir conforme uma vontade exterior ou impedidos de agir de acordo com sua própria intenção.
As forças psíquicas e morais se convertem em persuasão perversa quando, por meio da ideologia, grupos dominados são levados a pensar, sentir e querer o que interessa ao grupo dominante, a fim de serem mantidos privilégios.
Retomando o exemplo dos amantes: o medo da perda, o ciúme, o desejo de controle degeneram o poder e a força originários da atração amorosa e transformam a relação inicialmente voluntária em obrigação e constrangimento.
Da mesma forma, em todos os segmentos da vida comunitária, o indevido exercício do poder e da força instaura relações hierárquicas e estabelece a dominação.
Consideremos agora os conceitos de força e poder no domínio estrito da política.
O que é política
A política é a atividade que diz respeito à vida pública. Etimologicamente, polis, em grego, significa "cidade". A política é portanto a arte de governar, de gerir os destinos da cidade. O homem político é aquele que atua na vida pública e é investido de poder para imprimir determinado rumo à sociedade, tendo em vista o interesse comum.
A ação política não é exclusividade de alguns seres especiais. Cada indivíduo, enquanto cidadão (filho da cidade), deveria ter espaços de participação efetiva que em absoluto não se restringem apenas ao exercício do voto! Este é apenas um dos instrumentos da cidadania na sociedade democrática. Portanto, todos nós temos uma dimensão política que precisa ser atuante.
Embora não se confunda com as atividades comuns do homem (na família, trabalho, lazer etc.), a política de certa forma permeia todas as atividades humanas o tempo todo. Interfere na vida de cada um de múltiplas maneiras: na regulamentação legal das ações dos cidadãos, já que as leis são feitas pelos representantes escolhidos pelo povo; na gestão dos assuntos relativos à educação, saúde, abastecimento, transportes; nos aparelhos repressivos como tribunais, polícia, prisões. É impossível pensar em um setor sequer onde, de uma forma ou de outra, em maior ou menor grau, a influência da política não se exerça na vida de cada um.
Por exemplo, nas esquinas movimentadas das grandes cidades costumamos ver vendedores de balas, limões, panos de pó. Na maioria das vezes são crianças. A primeira impressão é de que certas pessoas escolhem de livre e espontânea vontade esse tipo de serviço, mas a análise cuidadosa revela a realidade cruel do desemprego e conseqüentemente de formas marginais de sobrevivência, como o subemprego. Diante das taxas de escolarização, ficamos sabendo que pelo menos um terço das nossas crianças em idade escolar se encontra fora da escola.
Não é possível analisar tal situação como simples decorrência da vontade de cada um: as crianças não freqüentam escola e estão soltas na rua não por vontade própria, nem porque seus pais são relapsos. Antes, é preciso tentar entender por que o Brasil tem um dos índices mais vergonhosos de distribuição de renda, ao mesmo tempo que se situa entre os oito ou dez países mais ricos do mundo!
É por estas situações e muitas outras que ninguém pode se considerar apolítico, sob pena de a pretensa neutralidade justificar a política vigente. O homem despolitizado compreende mal o mundo em que vive e é facilmente manobrado por aqueles que detêm o poder.
Política: teoria e prática
Em todos os tempos e lugares, nas mais diversas situações, sempre houve homens dominando homens: homens lutando pela conquista e manutenção do poder e homens lutando contra a opressão.
É inevitável que perguntemos: afinal, o que justifica o poder? quando é legítimo? quais os seus fundamentos e limites? Ou ainda: como conquistar o poder e como mantê-lo? como tratar aqueles que se submetem ao poder? Ou ainda: por que tantos se submetem a tão poucos?
Ao tentar responder a questões como essas, homens de todos os tempos elaboraram teorias as mais diversas, buscando explicações ora nos mitos e nas religiões, ora em tentativas predominantemente racionais. Em qualquer caso, as teorias políticas são a expressão do mundo em que vivemos. E não são apenas teorias, pois sempre trazem um convite à ação:
• para manter e justificar o status quo;
• ou para levar à transformação da sociedade, seja pela utopia, pela reforma ou pela revolução.
Por isso é importante estudar os clássicos, para examinar como eles perceberam os problemas do seu tempo. Sem dúvida isso nos auxiliará na interpretação do presente.
Nos capítulos desta Unidade, optamos por abordar as questões referentes à soberania. A soberania consiste no poder de mando de última instância, ou seja, o poder supremo. Quando perguntamos qual o lugar ocupado pelo poder, constatamos a diversidade das respostas dadas, assim como são diferentes as justificativas de todo tipo de poder, inclusive o despótico.
A partir da Idade Moderna, o Estado surgiu como o único representante supremo do poder e do uso legítimo da força. Com as teorias contratualistas nos séculos XVII e XVIII são discutidas a origem e a legitimidade do poder, e essa fecunda reflexão acentua a tendência de deslocamento da soberania do Executivo para o Legislativo (como na concepção de Locke), de forma a valorizar o poder que os cidadãos depositam nas mãos de seus representantes. A teoria da soberania popular atinge o seu auge na concepção de democracia direta de Rousseau.
Tais questões ainda hoje são atuais, estando presentes nas discussões, pelas correntes liberais, sobre a não-intervenção do Estado em áreas que antes eram de sua competência. O mesmo ocorre nos países do Leste europeu que, a partir do fim da década de 80, começaram a reagir à excessiva centralização do poder estatal.
Em meio a tais discussões, continuam a surgir propostas que visam maior participação política, com ampliação dos espaços possíveis de expressão da cidadania ativa, em busca de um tipo de exercício de poder que permita a instauração de uma sociedade sem privilégios.
O cidadão não-educado
(...) Nos dois últimos séculos, nos discursos apologéticos sobre a democracia, jamais esteve ausente o argumento segundo o qual o único modo de fazer com que um súdito transforme-se em cidadão é o de lhe atribuir aqueles direitos que os escritores de direito público do século passado tinham chamado de activae civitatis*; com isso, a educação para a democracia surgiria no próprio exercício da prática democrática. Concomitantemente, não antes: não antes como prescreve o modelo jacobino, segundo o qual primeiro vem a ditadura revolucionária e apenas depois, num segundo tempo, o reino da virtude. Não, para o bom democrata, o reino da virtude (que para Montesquieu constituía o princípio da democracia contraposto ao medo, princípio do despotismo) é a própria democracia, que, entendendo a virtude como amor pela coisa pública, dela não pode privar-se e ao mesmo tempo a promove, a alimenta e reforça. Um dos trechos mais exemplares a este respeito é o que se encontra no capítulo sobre a melhor forma de governo das Considerações sobre o governo representativo de John Stuart Mill, na passagem em que ele divide os cidadãos em ativos e passivos e esclarece que, em geral, os governantes preferem os segundos (pois é mais fácil dominar súditos dóceis ou indiferentes), mas a democracia necessita dos primeiros. Se devessem prevalecer os cidadãos passivos, ele conclui, os governantes acabariam prazerosamente por transformar seus súditos num bando de ovelhas dedicadas tão-somente a pastar o capim uma ao lado da outra {e a não reclamar, acrescento eu, nem mesmo quando o capim é escasso). Isto o levava a propor a extensão do sufrágio às classes populares, com base no argumento de que um dos remédios contra a tirania das maiorias encontra-se exatamente na promoção da participação eleitoral não só das classes acomodadas (que constituem sempre uma minoria e tendem naturalmente a assegurar os próprios interesses exclusivos), mas também das classes populares. Stuart Mill dizia: a participação eleitoral tem um grande valor educativo; é através da discussão política que o operário, cujo trabalho é repetitivo e concentrado no horizonte limitado da fábrica, consegue compreender a conexão existente entre eventos distantes e o seu interesse pessoal e estabelecer relações com cidadãos diversos daqueles com os quais mantém relações cotidianas, tornando-se assim membro consciente de uma comunidade.
* Em latim no original: cidadania ativa, direitos do cidadão. (N. do T.)
BOBBIO, Norberto. O futuro da democracia. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1986. p. 31-32.
[O poder democrático]
Regra geral, estamos preparados para perceber o sentido da política antes na violência do que no diálogo, antes na coerção do que na liberdade. E quanto ao poder, se alguém nos pergunta o que é isso, as primeiras imagens que nos ocorrem são sobre os aparatos de poder. São sobre o poder como coisa. Seria casual na tradição política brasileira a referência tão constante nos discursos oficiais aos "poderes constituídos"? É que a tradição — conservadora e autoritária — faz de tudo para obscurecer a dimensão essencialmente constituinte da noção de poder, ou seja, o poder como algo que se cria, como associação livre de vontades. Para a tradição é mais fácil perceber, por exemplo, o poder de um burocrata que apenas implementa decisões de outros, do que o poder de uma proposta política que mobiliza enormes quantidades de pessoas para chegar a determinadas decisões. Percebe melhor o poder morto do "aparelho", da "máquina", do que o poder vivo, potencialmente transformador, das relações políticas reais. No limite, vê no poder a capacidade da repressão muito mais do que a da libertação.
WEFFORT, Francisco C. Por que democracia? São Paulo, Brasiliense, 1984. p. 35.
Walden II
O psicólogo americano Skinner é autor de inúmeros ensaios onde desenvolve de forma original a teoria comportamentalista. Suas idéias também se encontram no romance Walden 11, uma sociedade do futuro, onde descreve a utopia de uma comunidade em que as pessoas vivem de acordo com os padrões científicos da "engenharia comportamental". No Capítulo 9 (A liberdade) consta outro trecho da referida obra. Vejamos aqui algumas de suas considerações sobre política:
Rogers tinha encontrado em uma biblioteca uma cópia do velho artigo de Frazier e o leu para nós. Nele estava exposta a tese que Rogers havia esquematizado três dias antes. A ação política era inútil na construção de um mundo melhor e os homens interessados nisso fariam melhor voltando-se para outros meios tão logo quanto possível. Qualquer grupo poderá ter auto-suficiência econômica se contar com os recursos da tecnologia moderna e os problemas psicológicos da vida grupai poderão ser resolvidos pela aplicação dos princípios da "engenharia comportamental". (...)
— Nós nos metemos em política para fins práticos imediatos. Todos nós votamos, mas não nos interessamos todos por isso. Temos um Administrador Político que se informa das qualidades dos candidatos às eleições locais e estaduais. Com a ajuda dos Planejadores, ele planeja o que chamamos de "cédula Walden" e vamos todos às urnas e votamos nela sem alteração.
— A maioria dos membros vota como lhes foi dito?
— E por que não? Você pensa que eles seriam tão tolos a ponto de votar metade de um jeito e metade de outro? Nesse caso, poderíamos ficar em casa. Lembrem-se de que nossos interesses são semelhantes e que nosso Administrador Político está na melhor posição possível para nos dizer qual candidato agirá dentro desses interesses. Por que é que os nossos membros teriam de perder tempo — e isso toma tempo — para se informarem sobre assunto tão complexo?
(...) Lembro-me de quando todo mundo podia falar sobre princípios mecânicos segundo os quais o seu automóvel andava ou não conseguia andar. Todo mundo era um especialista em carro e sabia como polir o platinado de um magneto e tirar a trepidação das rodas dianteiras. Sugerir que esses assuntos fossem deixados a especialistas teria sido denunciado como fascismo se o termo já tivesse sido inventado. Mas hoje, ninguém sabe como funciona o carro e não vejo que sejam menos felizes por isso. Em Walden 11, ninguém se preocupa quanto ao governo, exceto os poucos a quem essa preocupação foi atribuída. Sugerir que todo o mundo tome interesse pareceria tão fantástico quanto sugerir que todos se familiarizassem com as nossas máquinas diesel. Estou mesmo certo de que raramente alguém pensa nos direitos constitucionais dos membros. A única coisa que importa é a felicidade do dia-a-dia e a segurança futura. Qualquer infração ali, sem dúvida, "faria o eleitorado se levantar".
SKINNER, Burrhus F. Walden II, uma sociedade do futuro. São Paulo, EPU, 1975. p. 15, 199-200 e 266.
segunda-feira, 18 de julho de 2011
VALORES SOCIAIS
- PARTE I -
DESCOBRINDO OS VALORES
- O ser humano está sempre avaliando – Avaliar: identificar, reconhecer e aprecisar o valor.
- Reflexão em duas partes: abordagem conceitual e algumas questões sobre a teoria dos valores (ou axiologia).
1. Juízos de valor
Juízos de Realidade | Juízos de Valor | Avaliação |
Aquela caneta é azul | A caneta azul não é tão bonita quanto a vermelha | Estética |
Este lápis é novo | O lápis velho escrevia melhor que este novo | Utilidade |
Maria acabou de sair | Maria não deveria ter saído antes de terminar o trabalho | Moral |
Pedro foi comprar pão | O pão está muito caro | Econômico |
A barraca está cheia de frutas | As frutas fazem bem à saúde | Vital |
João está orando | Orar reconforta o espírito | Religioso |
- a palavra Valor:
• etimológico -“valere” – “ser forte, valoroso, eficaz” e “ter saúde”.
• psicológico – “mérito” – talento de alguém ou à coragem de um valoroso guerreiro.
• utilidade – quando uma faca perde o corte, dizemos que ela não vale nada.
2. O que são valores
- Valorar é uma experiência fundamentalmente humana que se encontra no centro de toda escolha.
- O objetivo de qualquer valoração é, sem dúvida, orientar a ação prática.
- Diante do que é, a valoração nos orienta para o que deve ser.
- Mas o que é o valor?
Existe o mundo das coisas e o mundo dos valores. Não podemos afirmar, porém, que os valores
São da mesma maneira que as coisas são, porque o valor é sempre uma relação entre o
sujeito que valora e o objeto que é valorado; por isso, não há
‘valor em si’, mas ‘valor para alguém’

- Os valores existem na ordem da afetividade, uma vez que não ficamos indiferentes diante de alguma coisa ou de uma pessoa, mas sempre somos afetados por elas de algum modo.
- Em linhas gerais: os filósofos definem o valor como “o que deve ser objeto de referência ou de escolha” ou, ainda, “um valor é o que vale; e valer é ser desejável ou desejado”.
3. De onde vêm os valores?
- Os valores são em parte herdados da cultura, e nossa primeira compreensão da realidade se funda no solo dos valores da comunidade a que pertencemos.
- As experiências de valorar variam conforme a cultura e a época.
- Apesar das variações, todas as comunidades têm a necessidade formal de regras, modelos, cânones, em todos os setores.
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4. Educar para os valores
- Mesmo sendo transmitidos os valores, não há como desprezar a capacidade humana de criticar os costumes vigentes e ansiar por novos horizontes de ação.
- A crítica é menos intensa nas sociedades tradicionais, que conservam seus modelos de comportamento por mais tempo; mas é muito forte em época de crise de valores.
- A tendência predominante das pessoas é resistir , buscando a segurança de valores dados e não questionados.
- De igual modo acontece com os valores morais: não nascemos morais, mas devemos nos tornar sujeitos morais.
• a construção de nossa personalidade moral supõe uma descentração – em que superamos o nosso egoísmo, em direção ao reconhecimento do outro como outro-eu.
• educação moral: inculcação das normas e estimulação da passagem da heteronomia para a autonomia.
• a discussão dos juízos de valor nos ajudam a buscar as razões que fundamentam nossas escolhas.
- Também não nascemos cidadãos, mas devemos ser educados para a cidadania ativa, comportamento fundamental para o exercício da democracia participativa. Não é fácil desenvolver a política da igualdade – que estimula a solidariedade, o pluralismo e o respeito pelos direitos humanos.
- Enfim:
• os valores servem para que a sociedade se humanize, mantenha a sua integridade e se desenvolva.
• para isso, é necessário a preservação da autonomia na capacidade de valorar.
• existe dois momentos: um em que os valores são herdados e, outro, pessoal e intersubjetivo, de questionamento dos valores, priorizando-os ou procedendo a sua revisão, quando eles deixam de estar a serviço da nossa humanização.
- PARTE II –
A FILOSOFIA DOS VALORES
1. Axiologia ou filosofia dos valores
- O conceito Valor:
• utilizado como termo técnico na economia política no final do séc. XVIII e início do séc. XIX, ao fazer distinção entre valor de uso e valor de troca.
• mais tarde incorporado à filosofia como um novo ramo: axiologia ou filosofia dos valores.
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2. Concepções axiológicas
- Desde a filosofia antiga, os pensadores abordavam as questões do valor sob o aspecto do bem, do belo, do verdadeiro, mas sempre com relação ao ser - a discussão não estava centrada no valor, que dependia da metafísica.
• Platão: “mundo das idéias” – modelo no qual a realidade concreta se espelha. Haveria o bem em si, o belo em si e o verdadeiro em si.
• Aristóteles: “natureza” – (inclusive a natureza humana) – como um processo em que todos os seres buscam atualizar (tornar atual) aquilo que são em potência, visando à plena natureza.
• Kant:Século XVIII, representante do iluminismo alemão – afirma que não podemos conhecer o ser profundo das coisas, concluiu pela incapacidade da razão de ter acesso à metafísica. Como conseqüência, se o ser não é mais o fundamento das nossas apreciações, cabe ao sujeito assumir o peso e a responsabilidade dos seus valores. Kant não se referia a um sujeito individual, mas ao sujeito universal, que ele chama de sujeito transcendental, capaz de autonomia, de julgar por si próprio ao fazer juízos estéticos e morais.
• Filósofos que se seguiram: passaram a dar destaque à noção de temporalidade e de vir-a-ser: neste mundo em mudança, que está sempre “por se fazer”, os valores adquirem dimensão própria.
• Friedrich Nietzsche: coloca em questão a escala de valores aceita muitas vezes devido ao hábito, mas sobretudo imposta pela tradição cristã.
- humildade, caridade, resignação e piedade são valores dos fracos e vencidos, próprio de uma moral de “escravos”, intimamente ligada às necessidades dos que vivem em rebanho.
- a “moral dos senhores” é positiva, porque baseada no sim à vida, e se configura sob o signo da plenitude, do acréscimo.
- propõe a transvaloração dos valores – eles não existiram desde sempre. Os valores são “humanos, demasiado humanos” e, portanto, foram criados.
- ao criticar o fato de que os valores há mais de dois mil anos se acham fundamentados na metafísica e na religião, considera que a vida é o único critério de avaliação que se impõe por si mesmo.
3. Relatividade e subjetividade dos valores.
- Seriam os valores relativos e não mais absolutos? Seriam eles subjetivos, e não objetivos e universais?
- Segundo a atitude intelectualista - pela qual se admite ser a razão que descobre os valores, e não a sensibilidade -, porder-se-ia concluir pela relatividade dos valores. Mas não é bem assim.
- Para outros filósofos, a recusa dos valores dados como eternos e imutáveis não significa cair no relativismo. Vejamos alguns tópicos a respeito do assunto:
• a questão do gosto não pode ser encarada como uma preferência arbitrária e imperiosa da nossa subjetividade, porque é possível educar a sensibilidade, aprimorando o gosto.
• respeitar as opiniões diferentes não significa a impossibilidade de discordar delas.
• é possível discutir com os opositores sobre os motivos das escolhas e das rejeições.
- Damos destaque ao esforço pessoal reflexivo, estimulado pelo diálogo, que leva ao esclarecimento dos nossos juízos de valor, bem como ao desenvolvimento da sensibilidade, o que nos permite lançar um outro olhar sobre nossas crenças arraigadas.
Conclusão
- A discussão filosófica sobre valores é importante, porque ela nos proporciona um olhar diferente sobre o mundo e sobre nós mesmos, o que pode resultar num antídoto para a alienação, o conformismo, o preconceito.
- Não podemos deixar de lado o caráter existencial do pensar, que se funda em exigência ética, estética e política.
- Enfim: precisamos dessa reflexão sobre os valores, num mundo excessivamente individualista, pragmático, tecnocrático, em que os meios são mais valorizados do que os fins humanos.
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